Cinco anos de covid-19: as memórias da linha de frente do Hospital Moinhos de Vento
10/03/2025

Profissionais relembram momentos marcantes do enfrentamento à pandemia

Tendas fazendo as vezes de emergência. Marcas de máscaras no rosto. Álcool em gel em falta nas farmácias. Compras de supermercado sendo lavadas. Trabalhadores de diversas áreas voltando para suas casas, onde assumiriam uma interminável jornada de home office. A rotina nem tão distante assim foi um marco da maior crise sanitária recente vivenciada pela humanidade. Provocada pelo chamado “novo coronavírus”, a covid-19 ceifou milhões de vidas por todo o mundo e deixou tantas sequelas quanto pode naqueles que se salvaram. Em 26 de fevereiro de 2020, o primeiro caso da infecção foi confirmado no Brasil: um homem de São Paulo, com histórico de viagem para a Itália, país que, na época, era o epicentro da crise.

Esse foi o estopim para que o Hospital Moinhos de Vento, de Porto Alegre (RS), acelerasse a organização de grupos de médicos, superintendentes, gerentes e coordenadores de áreas. Equipes multidisciplinares se reuniram em uma área externa, próxima a uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI), para discutir fluxos e treinar a paramentação. O time, composto por profissionais da UTI, da emergência e de controle de infecção, começou a gravar vídeos que eram disseminados nos grupos de WhatsApp para orientar a melhor forma de usar os equipamentos de proteção individual.

“Começamos a treinar como ia ser a preparação para utilizar os equipamentos de proteção individual (EPI): como é que põe a luva, como é que põe o avental, coloca antes a luva ou antes o avental? Como colocar a máscara, o capacete?”, relembra a gerente médica do Moinhos, Juçara Maccari. Enquanto isso, as lideranças da instituição se debruçavam sobre outras questões, como aquisição de suprimentos, modelos de máscaras que seriam adotados e como manejar colaboradores que apresentassem sintomas gripais. Esses esforços garantiram que o hospital estivesse preparado para enfrentar o pior momento da pandemia.

A partir do primeiro paciente confirmado em Porto Alegre, em 11 de março, um dia após a Organização Mundial da Saúde (OMS) decretar pandemia, tudo começou a ser colocado em prática. Naquele momento, o maior desafio, recorda Alexandre Zavascki, médico infectologista e chefe do Serviço de Infectologia do Hospital, era lidar com uma infinidade de dúvidas e poucas certezas. “Nos angustiava um pouco, pois ninguém sabia exatamente como e o quão transmissível era, por exemplo, por contato”. 

Ricardo Cremonese, médico intensivista e atual coordenador médico CTI adulto Hospital Moinhos de Vento, lembra das dificuldades do começo. “Fazíamos algumas coisas empiricamente, sem grau de evidência boa”. Contudo, a organização prévia deu tranquilidade para decisões cruciais, como a suspensão imediata das cirurgias eletivas.

Embora carregasse muitas incertezas, o 2020 transcorreu com razoável tranquilidade. O pior momento, destacam personagens da linha de frente, ocorreu no ano seguinte, quando entrou em circulação a variante Gama, que colocou em colapso o sistema de saúde de Manaus, no Amazonas. “Nossos casos estavam em declínio, começou a se ensaiar um movimento de aberturas quando estourou a nova variante por lá. Como tínhamos ganhado certa experiência, inclusive nos ciclos da doença, sabíamos que essa segunda onda viria para cá. E, de fato, estourou entre fevereiro e março — e foi muito pior”, diz Zavascki.

“Em 19 de fevereiro de 2021, eu pensei: ‘isso não pode estar acontecendo’. Eram casos muito graves, tivemos de ampliar muito a nossa capacidade de leitos de terapia intensiva. Ventilação mecânica, respiradores alugados, catéter de alto fluxo… Muitos recursos sendo utilizados e ao mesmo tempo controlados pelo temor da escassez”, completa Juçara. 

O Hospital Moinhos de Vento precisou ampliar a capacidade de atendimento a casos graves. Em meio aos caos, médicos não intensivistas precisaram atuar como tais, dada a escassez de especialistas. Houve uma ampliação no número de leitos de UTI que passou de 60 para 77, em 2020, e saltou para 106 no ano seguinte. A infraestrutura toda precisou abrigar leitos para atender a enorme demanda: salas de recuperação e leitos de internação foram adaptados. Os pacientes eram, dessa vez, mais jovens, na faixa dos 40 e 50 anos — contrastando com os idosos do início da pandemia. Apesar de nunca ter registrado falta de recursos, a rotina dos profissionais de saúde se tornou um malabarismo diário, com decisões sobre quem precisaria de leito de UTI, quem necessitaria de hemodiálise ou de entubação. “O que mais nos angustiava era não saber quando aquilo ia terminar”, desabafa a gerente médica.

Da exaustão ao afastamento familiar

A situação desesperadora teve diversas nuances e histórias que marcaram individualmente cada um dos personagens desse recorte. Seja no âmbito pessoal ou no profissional, a covid-19 deixou marcas e traumas em muitas pessoas. Dezenas delas, que atuavam na linha de frente, largaram suas profissões; outras tantas, perderam familiares ou colegas para a doença. E a imensa maioria precisou lidar com o afastamento dos entes queridos — e com os dias que pareciam ter mais do que 24 horas. “Todo mundo estava trabalhando a mais. Era um volume muito grande de trabalho, com pacientes muito graves. Além do estresse físico, teve o estresse emocional”, fala Cremonese. 

“Ficamos isolados, não tínhamos um período de lazer fora da casa da gente. Agora, perder algumas questões de privacidade e de contato com familiares, foi realmente o que mais pesou. Minha família é do interior, então, fiquei um tempo sem visitá-los”, diz Sidiclei Carvalho, gerente de Enfermagem e, à época, coordenador assistencial das Emergências. 

O distanciamento entre pacientes e seus familiares também se revelou como alguns dos momentos mais simbólicos da crise, mudando a lógica da relação assistencial. Por vezes, o contato era intermediado por telas, por meio de videochamadas. As visitas deixaram de ocorrer presencialmente para serem apenas virtuais, angustiando também os profissionais da linha de frente. “A questão do manejo dos pacientes que morriam também era complexa e pesava para a equipe, pois não permitia aos familiares o direito a um luto adequado”, complementa o intensivista.

Casos emblemáticos não faltaram no decorrer dos primeiros dois anos de pandemia. Um deles, relembra Carvalho, foi de um paciente crítico da emergência que precisava de um respirador. No entanto, o equipamento precisava ser liberado. Enquanto aguardavam, as equipes precisaram utilizar um aparato manual. “Outro momento importantíssimo foi a montagem da tenda externa. Criamos esse espaço para baixa complexidade, deixando a Emergência apenas para alta complexidade. Isso foi um marco, pois mudou toda a temática de atendimento. E era  um alto volume de pessoas buscando o serviço nas 24 horas do dia”, completa o gerente de Enfermagem.

Para Juçara, um paciente de 49 anos que precisou de ventilação e, posteriormente, oxigenação por membrana extracorpórea (ECMO) foi um caso marcante. Ela conta que o homem teve uma evolução muito rápida no quadro, chegando a ter uma mortalidade maior que 90% pelo parâmetro de ventilação. “Ele precisou de duas cirurgias torácicas, ou seja, foi submetido a procedimentos de altíssimo risco, ficou um tempão internado, com traqueostomia, mas depois se recuperou”, comemora. Entre 2020 e 2021, o Moinhos registrou diversas internações longas, contudo, duas se destacaram: uma de 416 dias e outra de 285.

O cenário caótico foi bastante impactado a partir do início da vacinação no Brasil e no Estado. No Rio Grande do Sul, o início da imunização ocorreu em 18 de janeiro de 2021, quando representantes de cada um dos grupos prioritários definidos pelo Ministério da Saúde tomaram a primeira dose. Zavascki destaca que, mesmo com muita desinformação sobre as vacinas autorizadas à época, a imunização resultou, visivelmente, na redução de casos graves, sobretudo em idosos. “Ainda assim, continuamos vendo pacientes com maior gravidade, principalmente aqueles que haviam recusado a vacina”, fala o infectologista.

Apesar dos momentos desesperadores, o Hospital Moinhos de Vento conseguiu mitigar ao máximo os problemas decorrentes da crise. Ao todo, foram mais de 5,1 mil atendimentos entre 2020 e 2024, e 606 óbitos. A pandemia também gerou uma ampla produção científica liderada por profissionais da instituição. Além disso, foram implementadas novas e mais rigorosas normas de controle de infecção, como o uso de máscara obrigatório em todas as interações com pacientes. 

Passados cinco anos desde os primeiros casos no país, sabe-se que a possibilidade de novas crises sanitárias é uma realidade inevitável. 

“A questão não é saber se vai ter, é quando vai ter e qual vai ser o vírus. Esse tipo de infecção não respeita fronteiras. As mudanças que promovemos na natureza, nos biomas, somado ao aquecimento global, impactam nessas populações de animais, de vetores. Todas essas questões aproximam as doenças dos seres humanos”, analisa Zavascki. 

Fonte: Anahp




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